Como funciona a psicanálise familiar? Saiba com Taiza Tosatt Eleoterio o que esperar das primeiras conversas

Emil Vardensen
Emil Vardensen
6 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

Conforme aponta a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, o atendimento familiar na psicanálise parte da ideia de que as dificuldades de uma casa raramente pertencem a uma só pessoa. Cada integrante ocupa um lugar, repete falas e sustenta combinados silenciosos que afetam todos. Por isso, ouvir cada um, sem tomar partido, abre espaço para que pais, filhos e outros parentes percebam como se relacionam e o que cada um espera do outro. Conhecer esse tipo de escuta ajuda a diminuir o receio de procurar apoio e fortalece a saúde mental familiar.

O que é o atendimento familiar na psicanálise?

O atendimento familiar na psicanálise, também conhecido como psicanálise familiar, é um espaço de escuta em que pais, filhos e outros integrantes da casa são convidados a falar sobre a vida em comum. A proposta não é descobrir quem está certo ou errado, e sim compreender como a família funciona como um conjunto, com seus acordos, silêncios e maneiras de lidar com os conflitos.

Taiza Tosatt Eleoterio lembra que cada família tem a sua história, e que olhar para ela exige cuidado. Uma dificuldade que aparece em um filho, por exemplo, pode estar ligada ao que acontece entre os adultos ou a uma mudança recente que ainda não foi bem digerida por todos.

Por que os conflitos de uma casa envolvem todos?

Dentro do ambiente familiar, as pessoas se influenciam o tempo todo. O cansaço de um adulto altera o clima das refeições, o silêncio de um adolescente muda o jeito como os pais conversam, e a preocupação com a criança pode ocupar o espaço de outras conversas importantes. Quando um integrante sofre, os demais costumam sentir, mesmo sem saber explicar.

Atribuir o problema a uma única pessoa nem sempre ajuda. Rotular alguém como “o difícil” ou “a que dá trabalho” pode aliviar a tensão por um momento, mas tende a esconder o que está sendo vivido por todos e a deixar essa pessoa mais sozinha.

Como funciona a escuta de cada integrante?

Na escuta psicanalítica, cada pessoa tem o direito de falar com as próprias palavras, no seu tempo, sem ser interrompida ou corrigida. Quem conduz o atendimento não toma partido, e a ideia é que todos se sintam seguros para dizer o que pensam e sentem, inclusive as crianças, de acordo com a idade e o jeito de cada uma.

Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que ouvir não é concordar. É dar espaço para que cada versão exista, para que os familiares percebam como o outro vive a mesma situação e para que, aos poucos, surjam formas de conversar que antes pareciam impossíveis.

O que esperar das primeiras conversas?

As primeiras conversas costumam ser de aproximação. O profissional escuta o que trouxe a família até ali, pergunta sobre a rotina, os vínculos e as expectativas de cada um e explica como o atendimento pode acontecer. Não é preciso chegar com tudo organizado nem com respostas prontas: começar pelo que incomoda já é suficiente.

Taiza Tosatt Eleoterio sinaliza que é normal sentir receio nesse começo, principalmente quando há assuntos difíceis ou sentimentos de culpa. O sigilo e o respeito ao ritmo de cada integrante ajudam a construir confiança, e não há obrigação de contar tudo logo no primeiro encontro.

Quando considerar esse tipo de acompanhamento?

Esse tipo de acompanhamento pode ser considerado em diferentes momentos: uma separação, a chegada de um bebê, a perda de alguém querido, uma mudança de cidade, conflitos entre pais e filhos adolescentes ou a sensação de que a convivência se tornou pesada. Procurar ajuda não significa que a família falhou, e sim que ela quer cuidar de si.

Taiza Tosatt Eleoterio explica que a procura por escuta não depende de uma crise declarada. Muitas famílias buscam apoio por perceber que algo mudou, e ouvir esse sinal cedo costuma ser um gesto de cuidado. Em situações de violência doméstica ou de risco, também é importante buscar a rede de apoio e os serviços de acolhimento social da região.

Ser ouvido em família fortalece vínculos e o cuidado mútuo

Nesse sentido, o atendimento familiar na psicanálise oferece um espaço em que todos podem ser ouvidos sem julgamentos, e em que os conflitos deixam de ser vistos como culpa de uma só pessoa. Ao perceber como cada integrante contribui para o clima da casa e como é afetado por ele, a família ganha novas formas de conversar e de se cuidar.

Essa escuta fortalece os vínculos e a saúde mental familiar, sem promessas de soluções rápidas e respeitando o tempo de cada um. Taiza Tosatt Eleoterio reitera que procurar apoio é um passo possível para quem deseja uma convivência mais respeitosa, e o acolhimento da família e da comunidade faz diferença nesse caminho.

Compartilhe este artigo