Feira em Ribeirão Preto reúne robôs autônomos, tratores por comando de voz e tecnologia capaz de reduzir em 62% o uso de defensivos.
A edição de 2026 da Agrishow, realizada em Ribeirão Preto entre 27 de abril e 1º de maio, deixou claro que a inteligência artificial deixou de ser promessa para se tornar rotina em boa parte das propriedades rurais brasileiras. Com mais de 800 expositores e expectativa de movimentar até R$ 15,8 bilhões em negócios, a feira reuniu desde robôs autônomos até tratores capazes de responder a comandos de voz. Mas o dado que mais chamou atenção do público técnico foi apresentado pela Bosch: segundo a empresa, sistemas de aplicação inteligente já conseguem reduzir em média 62% o uso de defensivos agrícolas. Diante de tantas novidades, uma pergunta fica no ar para o produtor que ainda não investiu nessas tecnologias: vale a pena migrar agora, ou é melhor esperar a próxima geração de soluções amadurecer?
O que a Agrishow revelou sobre o novo campo brasileiro
Um dos destaques da feira foi a apresentação de sistemas de pulverização que usam inteligência artificial para identificar pragas em tempo real e aplicar insumos apenas onde realmente são necessários. De acordo com Matias Schelp, vice-presidente de Agricultura Inteligente da Bosch, essa tecnologia gera uma economia média de 62% no uso de defensivos, o que representa ganho tanto para o bolso do produtor quanto para o meio ambiente. Outro ponto alto foi a apresentação dos robôs autônomos Solix XT e Solix XC, da empresa Solinftec, capazes de operar com autonomia de até 70 horas e cobertura de até 1.000 hectares em lavouras de soja, milho e algodão. Já os drones agrícolas expostos na feira surpreenderam pela capacidade de carga, ultrapassando 100 quilos em alguns modelos, com uso voltado à irrigação, pulverização e aplicação de herbicidas em diferentes tipos de terreno. Times BrasilTimes Brasil
Além dos equipamentos físicos, chamou atenção a presença de tratores equipados com assistentes de inteligência artificial acionados por comando de voz, capazes de esclarecer dúvidas do operador sobre consumo de combustível, emissões e funcionamento básico da máquina em tempo real. Esse tipo de interface por linguagem natural representa uma mudança relevante na relação entre trabalhador rural e maquinário pesado, já que informações que antes dependiam de manuais técnicos ou suporte especializado passam a ser acessadas de forma imediata. Para especialistas do setor, esse movimento indica que o diferencial competitivo do agro brasileiro não está mais apenas no tamanho das máquinas, mas na capacidade de integrar hardware, software, sensores e conectividade em um único sistema de decisão.
O que os números dizem sobre a adoção da tecnologia
Um levantamento do Radar Agtech, produzido em parceria entre Embrapa, PwC e outras instituições, ajuda a dimensionar esse movimento. Segundo o estudo, 83% das agtechs brasileiras já utilizam inteligência artificial em seus processos ou produtos, e 35% delas têm a tecnologia como núcleo da própria proposta de valor. Esse dado reforça que a IA deixou de ser apenas um diferencial pontual entre startups do setor e passou a ocupar um papel estrutural nos modelos de negócio voltados ao campo. Ao mesmo tempo, relatórios do setor apontam que produtores que já adotam agricultura de precisão associada à inteligência artificial relatam reduções de até 20% em custos operacionais e ganhos de produtividade que podem chegar a 30% em algumas culturas, dependendo da região e do nível de investimento tecnológico realizado. PwC Brasil
Apesar do otimismo, a adoção dessas tecnologias ainda enfrenta obstáculos práticos, especialmente entre pequenos e médios produtores. O custo inicial de equipamentos como robôs autônomos e sistemas de pulverização inteligente segue elevado, o que limita o acesso imediato de parte considerável do campo brasileiro. A conectividade também é um entrave relevante, já que apenas uma fração das áreas produtivas do país conta hoje com cobertura de internet móvel suficiente para operar essas soluções em tempo real, embora sistemas em nuvem com sincronização posterior venham amenizando esse gargalo. Linhas de financiamento voltadas à modernização, incluídas no próprio Plano Safra, aparecem como caminho possível para reduzir essa barreira nos próximos anos.
A Agrishow 2026 confirmou que o agronegócio brasileiro está diante de uma transição tecnológica que vai além da simples automação de tarefas. A combinação entre robótica, inteligência artificial e conectividade começa a redefinir a forma como decisões são tomadas no campo, do plantio à colheita. Para o produtor, o recado da feira foi direto: investir em tecnologia deixou de ser diferencial competitivo e caminha para se tornar condição básica de permanência no mercado, especialmente diante da concorrência internacional e das exigências crescentes de sustentabilidade e rastreabilidade por parte dos compradores globais.
Fontes consultadas:
Times Brasil (CNBC) — https://timesbrasil.com.br/empresas-e-negocios/agro/agrishow-2026-ia-no-campo-pode-reduzir-em-62-uso-de-defensivos-diz-vice-presidente-da-bosch/
Times Brasil (CNBC) — https://timesbrasil.com.br/brasil/ia-robos-e-etanol-agrishow-2026-mostra-como-o-agro-se-reinventa-no-campo/
PwC / Radar Agtech — https://www.pwc.com.br/pt/consultoria/agtech-innovation/agtech-innovation-news/materias/2026/Radar-Agtech-Brasil-Inteligencia-artificial-usada-por-agtechs-no-pais.html

