Mulheres avançam na liderança do agronegócio, mas topo da hierarquia ainda resiste

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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O agronegócio brasileiro vem registrando um dos avanços mais expressivos do país em participação feminina na liderança, segundo levantamentos recentes do setor.

De acordo com pesquisa do Great Place to Work, o crescimento da presença de mulheres em posições de liderança no agro saltou de 14% em 2022 para 24% em 2025, representando o maior avanço percentual entre todos os setores da economia brasileira analisados no período, à frente inclusive de segmentos tradicionalmente mais associados à equidade de gênero.

Média liderança avança, mas alta cúpula ainda é predominantemente masculina

Os dados mais recentes da pesquisa Melhores Empresas de Agronegócio, também conduzida pelo GPTW, mostram que 29% dos cargos de média liderança nas empresas premiadas em 2026 são ocupados por mulheres, um avanço de cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior. O cenário muda, no entanto, quando o recorte é a alta liderança das mesmas empresas: nesse nível hierárquico mais elevado, a participação feminina recuou de 22% para 18% na comparação entre os dois últimos levantamentos, evidenciando que o avanço nas camadas intermediárias ainda não se traduziu integralmente no topo das organizações.

Um dado que reforça o argumento de que diversidade e desempenho caminham juntos é o desempenho financeiro das empresas premiadas pelo ranking. Segundo o levantamento, as companhias reconhecidas como melhores empregadoras do agronegócio em 2026 registraram crescimento médio de 12%, praticamente o dobro do desempenho de 7% observado entre empresas não premiadas no mesmo período. Essas organizações também se destacam por desenvolver ambientes considerados inovadores com frequência seis vezes maior do que empresas fora do ranking, segundo a mesma pesquisa.

Quase 11 milhões de mulheres trabalham no campo brasileiro

Além da liderança corporativa, os números sobre presença feminina na produção agropecuária em si também chamam atenção. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, aponta que quase 11 milhões de mulheres trabalharam no agronegócio brasileiro, ocupando funções que vão desde a produção direta até a gestão completa de propriedades rurais, um contingente que reforça a relevância econômica e social da presença feminina no setor.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, as mulheres administram atualmente cerca de 30 milhões de hectares dedicados à produção agropecuária no Brasil, distribuídos em aproximadamente 947 mil estabelecimentos rurais. Esse volume equivale a cerca de 8,5% de toda a área ocupada por sítios e fazendas no território nacional, com maior concentração em propriedades de até 20 hectares vinculadas à agricultura familiar, um perfil de produção historicamente associado a menor acesso a crédito e assistência técnica especializada.

Estados como Mato Grosso do Sul têm investido em programas específicos para fortalecer a presença feminina no campo. Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais, as mulheres já representam 43,1% dos empregos formais no estado, com mais de 15 mil profissionais atuando especificamente no setor agropecuário. Iniciativas como o Programa Mulheres em Campo, conduzido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no estado, já capacitaram mais de 580 participantes com foco em gestão e fortalecimento de empreendimentos rurais liderados por mulheres.

Barreiras culturais ainda pesam na cultura da soja

Nem todas as culturas agrícolas apresentam o mesmo ritmo de avanço na participação feminina. Um estudo sobre mulheres nas cadeias de valor do agronegócio brasileiro, publicado pela Fundação IDH, identificou que, especificamente na cultura da soja, a mais relevante para a economia nacional, o acesso à gestão ainda enfrenta barreiras culturais consideradas severas, incluindo pressão doméstica para o abandono de cargos de liderança por parte de mulheres que assumem posições de comando na produção.

Pesquisas acadêmicas recentes também mapearam as dificuldades enfrentadas por mulheres logo no início da carreira no setor. Um estudo que ouviu 27 mulheres formadas em ciências agrárias entre 2000 e 2024 identificou barreiras recorrentes como dupla jornada de trabalho, disparidade salarial em relação a colegas homens, preconceito velado e falta de credibilidade inicial junto a clientes e parceiros comerciais, além da dificuldade adicional em assumir cargos de liderança mesmo após anos de experiência acumulada no setor.

Formação e networking seguem sendo caminhos centrais

Diante desses desafios ainda presentes, especialistas do setor reforçam que investimento em capacitação técnica e construção de redes de apoio entre mulheres seguem sendo elementos centrais para sustentar o avanço observado nos últimos anos. Eventos voltados especificamente para produtoras rurais têm crescido em tamanho e relevância dentro do calendário do agronegócio brasileiro, funcionando como espaços de troca de experiências e fortalecimento profissional para quem busca ocupar posições de maior responsabilidade dentro de suas propriedades ou empresas do setor.

Fonte: Mundo Coop | Portal CNA Brasil | Diário do Comércio

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