Sequelas pulmonares pós-COVID-19: o que o acompanhamento radiológico revela no longo prazo?

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Gustavo Khattar de Godoy

Na visão de Gustavo Khattar de Godoy, médico com especialização em radiologia e diagnóstico por imagem, com doutorado pela UNICAMP e pós-doutorado pelo Johns Hopkins Hospital, a pandemia de COVID-19 deixou uma herança clínica que os sistemas de saúde ainda estão aprendendo a dimensionar. Isso porque, para além das mortes e das internações, milhões de pacientes que sobreviveram ao quadro agudo passaram a conviver com sintomas persistentes: falta de ar aos esforços, fadiga que não cede, tosse sem causa aparente. Como o pulmão, órgão central na doença, tornou-se também o principal território das sequelas, um cenário que Gustavo Khattar de Godoy acompanhou de perto e que entende o que esse cenário exige da prática radiológica no período pós-pandemia.

 

Diante disso, este artigo examina o que o acompanhamento por imagem revela sobre o pulmão que sobreviveu à COVID-19 e por que esse seguimento ainda é subestimado. Vale a leitura completa!

O que acontece com o pulmão depois da infecção aguda?

A COVID-19 grave provoca uma resposta inflamatória intensa no tecido pulmonar, capaz de deixar marcas estruturais que persistem muito depois da resolução da fase aguda. Marcas tais como opacidades em vidro fosco, consolidações e padrões de fibrose incipiente são achados documentados em pacientes que tiveram formas moderadas a graves da doença, e sua evolução ao longo dos meses seguintes varia de forma significativa de um paciente para outro. Alguns regridem completamente. Por sua vez, outros evoluem para alterações fibróticas que comprometem a função pulmonar de forma duradoura.

Segundo Gustavo Khattar de Godoy, o acompanhamento tomográfico seriado é o instrumento mais preciso para monitorar essa evolução. Isso porque a tomografia de alta resolução permite identificar quais alterações estão regredindo, quais estão estabilizadas e quais sinalizam progressão para fibrose estabelecida, uma distinção que tem implicações diretas no manejo clínico e nas decisões terapêuticas. Em vista disso, sem esse acompanhamento, o médico assistente toma decisões com base em sintomas que nem sempre refletem com fidelidade o que está acontecendo no parênquima pulmonar.

Quais pacientes precisam de acompanhamento radiológico após a COVID-19?

Nem todo paciente que teve COVID-19 precisa de seguimento tomográfico sistemático. Já que a indicação depende da gravidade do quadro agudo, da presença de sintomas persistentes e dos achados identificados nos exames realizados durante a internação. Dessa forma, os pacientes que necessitaram de suporte ventilatório, que apresentaram comprometimento pulmonar extenso ou que mantêm sintomas respiratórios após a recuperação são os que mais se beneficiam de um protocolo estruturado de acompanhamento por imagem.

Para Gustavo Khattar de Godoy, um dos problemas mais frequentes no seguimento pós-COVID-19 é a ausência de protocolos claros que definam quando e com qual frequência os exames devem ser realizados. Sem essa estrutura, pacientes que precisam de acompanhamento ficam sem ele, e pacientes de baixo risco realizam exames desnecessários. Sendo assim, a definição de critérios objetivos para o seguimento radiológico é uma das lacunas que a medicina ainda precisa preencher de forma sistemática nesse contexto.

Gustavo Khattar de Godoy
Gustavo Khattar de Godoy

O que os achados de longo prazo estão ensinando sobre a doença?

O acompanhamento radiológico de pacientes pós-COVID-19 ao longo de meses e anos está gerando um volume de dados que começa a revelar padrões antes desconhecidos. A proporção de pacientes que evolui para fibrose pulmonar clinicamente significativa, os fatores que predispõem a essa evolução e o comportamento das alterações em vidro fosco ao longo do tempo são questões que só o seguimento sistemático por imagem consegue responder com precisão.

Assim como destaca Gustavo Khattar de Godoy, esses dados têm valor que vai além do cuidado individual. Nesse sentido, eles alimentam a compreensão coletiva sobre os efeitos de longo prazo da COVID-19 e informam políticas de saúde sobre quais populações precisam de monitoramento contínuo. O médico com especialização em radiologia, nesse cenário, não é apenas um intérprete de imagens: é um produtor de conhecimento clínico que o sistema de saúde precisa para tomar decisões mais inteligentes sobre o legado da pandemia.

O pulmão pós-pandemia ainda tem muito a revelar

As sequelas pulmonares da COVID-19 não são um capítulo encerrado. São um processo em curso, que exige acompanhamento, pesquisa e protocolos clínicos que ainda estão sendo construídos. A área da radiologia ocupa nesse processo um lugar insubstituível, como ferramenta de monitoramento, como fonte de evidência científica e como instrumento de cuidado para milhões de pacientes que sobreviveram à doença, mas ainda carregam suas marcas no pulmão, finaliza Gustavo Khattar de Godoy.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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