Requalificação de orlas urbanas e gestão de resíduos: uma agenda que se encontra no litoral

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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Marcello José Abbud

Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, observa que os projetos de requalificação de orlas urbanas, cada vez mais comuns em cidades litorâneas brasileiras que buscam recuperar a relação entre a população e seus espaços costeiros, trazem embutida uma dimensão de gestão de resíduos que frequentemente recebe menos atenção do que os aspectos paisagísticos e turísticos desses projetos.

A revitalização de calçadões, praças e áreas de lazer junto ao mar precisa necessariamente contemplar a estruturação de sistemas adequados de coleta, tratamento e destinação de resíduos, sob pena de comprometer os próprios objetivos ambientais e de qualidade de vida que motivam esses investimentos. Nas próximas linhas, você vai descobrir como essas duas agendas se conectam e por que essa integração é determinante para o sucesso dos projetos de requalificação costeira.

O aumento do fluxo de visitantes e a pressão sobre os sistemas locais

Projetos bem-sucedidos de requalificação de orla tendem a atrair fluxo crescente de visitantes, moradores e turistas para as áreas revitalizadas, gerando um volume de resíduos proporcionalmente maior do que o sistema de coleta local estava dimensionado para atender antes da intervenção urbanística. Quiosques de alimentação, eventos culturais e esportivos e o uso intensivo das áreas de lazer nos fins de semana e feriados criam picos de geração de resíduos que exigem planejamento específico de coleta, sob risco de comprometer a experiência dos usuários e a própria imagem do espaço recém-revitalizado.

Conforme analisa Marcello José Abbud, muitos projetos de requalificação de orla concentram investimento na infraestrutura física, como pavimentação, paisagismo e mobiliário urbano, sem dimensionar adequadamente a infraestrutura de coleta seletiva necessária para sustentar o uso intensivo desses espaços ao longo do tempo. O resultado é a degradação acelerada de áreas recém-inauguradas, com acúmulo de resíduos em lixeiras subdimensionadas e descarte irregular nas áreas adjacentes quando a capacidade de coleta é insuficiente para o fluxo real de visitantes.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Resíduos marinhos e a interface entre terra e mar nas áreas requalificadas

As orlas urbanas requalificadas enfrentam um desafio adicional específico de sua localização: a chegada de resíduos transportados pelo mar, depositados pelas marés e pelas correntes costeiras, que se somam aos resíduos gerados pelos próprios usuários do espaço terrestre. De fato, esse fluxo constante de materiais provenientes de fontes externas ao município, muitas vezes originados em outras regiões costeiras ou mesmo em embarcações, exige rotinas de limpeza de praia que vão além da gestão convencional de resíduos urbanos terrestres.

Na avaliação de Marcello José Abbud, a integração entre os serviços de limpeza urbana terrestre e os programas de monitoramento e limpeza de praias é frequentemente insuficiente nos municípios litorâneos brasileiros, com responsabilidades fragmentadas entre diferentes secretarias e órgãos que dificultam uma resposta coordenada ao problema. Por essa razão, projetos de requalificação de orla que incluem, desde o planejamento, sistemas integrados de gestão dos resíduos terrestres e marinhos, demonstram resultados mais consistentes de manutenção da qualidade ambiental ao longo do tempo.

Engajamento comunitário e sustentabilidade de longo prazo dos projetos

A sustentabilidade ambiental dos projetos de requalificação de orla depende fundamentalmente do engajamento contínuo da comunidade local e dos visitantes na manutenção das práticas adequadas de descarte de resíduos. Campanhas de comunicação que expliquem a localização dos pontos de coleta seletiva, parcerias com associações de moradores para monitoramento comunitário e programas de educação ambiental voltados especificamente para usuários de espaços públicos litorâneos são elementos que contribuem para a preservação dos benefícios obtidos com a requalificação ao longo dos anos.

No fim, Marcello José Abbud alude que projetos de requalificação de orla que envolvem a comunidade desde as etapas iniciais de planejamento, incluindo a definição da infraestrutura de gestão de resíduos, tendem a gerar maior senso de pertencimento e corresponsabilidade pela manutenção do espaço. A combinação entre infraestrutura adequada de coleta, integração entre gestão terrestre e marinha de resíduos e engajamento comunitário sustentado é o que diferencia projetos de requalificação que mantêm sua qualidade ambiental ao longo dos anos daqueles que se degradam rapidamente após a inauguração.

 

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