A partir do que indica e apresenta o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, o Brasil construiu suas grandes cidades sobre ondas de migração interna que deslocaram milhões de pessoas do campo e do interior para os centros urbanos ao longo do século XX. Muitas dessas pessoas envelheceram nas cidades para as quais migraram, carregando consigo uma identidade cultural formada em outro território, outra paisagem e outro ritmo de vida. Na prática, o encontro entre esse passado rural e o presente urbano na velhice produz tensões psicológicas, sociais e clínicas que a medicina raramente nomeia e quase nunca investiga.
Neste conteúdo, você vai descobrir o que o desenraizamento cultural produz na saúde do idoso migrante e por que essa dimensão precisa entrar no radar clínico. Confira!
A identidade que ficou para trás e o corpo que ficou aqui
O idoso que migrou do interior para a cidade frequentemente viveu décadas de adaptação funcional ao ambiente urbano sem nunca ter se sentido plenamente pertencente a ele. Na velhice, quando a atividade profissional que estruturava o cotidiano se encerra e as redes sociais construídas na cidade se desfazem, esse sentimento de não pertencimento ressurge com intensidade renovada. A saudade do interior, que na vida adulta ativa podia ser colocada em segundo plano, passa a ocupar um espaço central na experiência cotidiana do idoso.
Como elucida Yuri Silva Portela, esse processo tem implicações clínicas diretas. Isso porque os idosos migrantes apresentam taxas mais elevadas de depressão e ansiedade associadas ao luto cultural, especialmente quando perderam os principais vínculos que os conectavam à terra de origem, sejam pais, irmãos ou amigos de infância que já faleceram ou que permanecem distantes. A cidade que os acolheu nunca se tornou completamente sua, e o interior ao qual pertenciam já não existe da forma que guardam na memória.
Alimentação, corpo e identidade cultural na velhice
A alimentação é um dos domínios em que o desenraizamento cultural se manifesta de forma mais concreta e mais clinicamente relevante. O idoso migrante frequentemente mantém preferências alimentares formadas no interior, por alimentos produzidos localmente, preparados de formas específicas e consumidos em contextos sociais que a cidade não oferece. Quando esses alimentos não estão disponíveis ou quando a capacidade de prepará-los se reduz pela limitação funcional, o impacto não é apenas nutricional: é também identitário e emocional.

A anamnese nutricional do idoso migrante precisa considerar essa dimensão cultural. Desse modo, Yuri Silva Portela expressa que entender o que o paciente comia, como comia e com quem comia antes de migrar oferece informações valiosas sobre padrões alimentares arraigados, sobre deficiências nutricionais específicas de determinadas regiões e sobre o que a adaptação forçada à alimentação urbana pode ter produzido em termos de saúde metabólica ao longo das décadas.
Redes de suporte, solidão e o peso da distância
O idoso migrante frequentemente construiu sua rede de suporte na cidade de forma mais frágil do que aquela que teria tido se permanecesse no interior. Sem os vínculos comunitários e familiares extensos que caracterizam muitas regiões rurais brasileiras, especialmente no Nordeste, esse idoso depende de uma rede urbana menor e mais vulnerável ao enfraquecimento pelo falecimento de membros, pela mobilidade dos filhos e pela dissolução de vínculos de vizinhança que a dinâmica urbana não favorece.
Nesse quesito, Yuri Silva Portela observa que a solidão do idoso migrante tem uma dimensão específica que a diferencia da solidão urbana comum: ela carrega o peso de uma escolha que não pode ser desfeita, de uma vida construída longe de onde se pertencia e de uma velhice vivida em um território que nunca foi completamente seu. Logo, reconhecer essa especificidade é o que permite oferecer um cuidado que responda ao sofrimento real do paciente, e não apenas aos seus parâmetros laboratoriais.
O que a medicina pode fazer com essa informação?
Incorporar a história migratória na avaliação geriátrica ampliada é uma mudança simples com potencial diagnóstico significativo. Perguntar de onde o idoso veio, quando migrou, o que deixou para trás e como se sente em relação a esse trajeto de vida oferece uma dimensão clínica que nenhum exame consegue capturar. Essa informação orienta a identificação de fatores de risco psicossociais, a compreensão de padrões alimentares e comportamentais e a construção de um vínculo terapêutico que reconhece o paciente em sua totalidade.
No fim, Yuri Silva Portela explana que a medicina que cuida do idoso migrante com excelência é aquela que consegue enxergar, por trás do corpo que está na consulta, a trajetória que o formou e o território que ele carrega dentro de si, mesmo décadas depois de tê-lo deixado para trás.

